sexta-feira, 25 de maio de 2012

O ASSOMBROSO MUNDO DO NÃO SABER

No dia seguinte, a cor prometida não correspondia ao que vestia para o encontro, nem ela também se perfumara, o que para bom entendedor podia significar um mundo inteiro de interpretações variadas, contraditórias até, assim como tinha sido com o primeiro riso, o primeiro aperto de mão, a troca de cartas que se seguira ao telefonema, até finalmente decidirem que essa etapa de angústias canhestramente dissimuladas estava superada, até que enfim.

Podia ser nada também, considerou. De modo geral, e fazia esse cálculo mental enquanto contava quantas pessoas ainda faltavam para chegar sua vez na fila da casquinha, certo de que possuía uma capacidade fora do normal para resolver múltiplas pendências de natureza diversa ao mesmo tempo -

Eventualmente alguém apenas não terá um frasco de perfumaria, sequer um desodorizador, e talvez eu esteja atribuindo aos detalhes uma importância desimportante.

Não é que detalhes não sejam importantes, é que apenas essa importância toda dos detalhes pode não significar muita coisa para a outra pessoa, apenas porque essa outra pessoa costuma se fixar num quadro genérico de sentimentos e afetações e jamais em pequenezas,

Disse tudo isso encarando a caixa, que havia àquela altura perguntado uma porção de vezes, chocolate, mista ou baunilha?

Chocolate, tinha certeza.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Unha pintada

Amanhã, disse, estarei aqui novamente, amanhã faremos uma jura secreta, como a dos amantes?, como a dos amantes, e não será em vão que terei esperado até agora por algo que todos supunham povoar unicamente os dramas de menina, frisavam bastante o “dramas de menina”, essa parte me deixava enjoada, tinha medo, tinha vontade, tinha desejo, sim, desejo, tudo ao mesmo tempo, dramas de menina?, até podia ser.

Amanhã, respondi, vestirei amarelo e se tudo for mesmo conforme o combinado, virei pela manhã, pouco depois das nove, unhas pintadas de azul, sandália de bolinhas, lenço e luvas, que está frio, talvez um acessório carmesim, não sei exatamente qual, ainda é dúvida.

Ainda é dúvida, repetiu.

Nada de sorrir

Na dúvida, fui checar o baralho. Olhei o meu próprio, que fica sempre ao lado dos livros, ao alcance da mão, e alguns outros tipos na internet.

Curioso. Em nenhum deles o valete está sorrindo. Na minha cabeça a carta sempre manteve um riso zombeteiro.

Literatura buliçosa


Acima, o chileno Alejandro Zambra, autor de Bonsai. Zambra estará numa das mesas da 10ª edição da Flip.

Dois livros buliçosos de tão bons.

Comprem. Ambos são baratinhos. Um é Bonsai. Outro é Sonhos de trem. E leiam depois, claro. Se puderem, acrescentem Festa no covil à cesta de compras.

Nuvem

Três semanas sem fumar. Pensava que estava curado. Deu vontade. Voltei. Estou curado.

Passei o mesmo período sem escrever. Não há propriamente relação entre a falta de cigarros e o silêncio. Não nesse nível mais elementar.

Conheço alguém que associa o cigarro à criatividade. Na verdade, sente-se bastante genial quando recende a fumo.

Um parêntese. Meu avô era jogador de baralho. Não tinha estudos. Era namorador, briguento, bebia muito na rua. Um tipo valente, diziam. O mais valente do bairro. Quando dava vontade, pescava numa lagoazinha perto de casa, mas gostava mesmo era de apostar nas cartas.

Não conheci meu avô. Nem em fotografias. Ele morreu numa briga. Mesmo baleado, conseguiu esfaquear o agressor, um sargento da polícia.

Sempre gostei de baralho. Tinha medo e fascínio, na verdade. Medo das cartas. Fascínio pelos naipes, desenhos, sorrisos do valete, da dama etc.

Temia principalmente uma velha que punha cartas na mesinha de centro da casa de um amigo. Era uma velha muito feia.

Talvez até bruxa. Espero que tenha morrido.

Essas histórias integram uma nuvenzinha que sobrevoa minha cabeça, acompanhando-me a qualquer lugar.

sábado, 12 de maio de 2012

Feliz dia dia dia

Urdiguistão

0h46, domingo, dia das mães, parabéns pra você a menos de um quarteirão, repetem, mas sem a parte do é pique, é pique e também sem a interrogação invasiva com quem será.

Cachorros latem, nenhum ônibus passa, volta o silêncio.

Dia das mães

É acusada de matar a filha de sete anos e de estuprar a mais nova, uma dupla violência cometida a menos de uma semana do dia das mães, a vizinhança arrogou-se a tarefa de apedrejá-la, não fosse a família abrigá-la por algum tempo, a jovem tem 23 anos, chama-se Zacla, um nome incomum, só agora percebo, eis que a ainda muito jovem Zacla deixou a casa dos parentes e, fugitiva da vista alheia, meteu-se furtivamente em um quarto de motel, lá, conta a polícia, foi presa, não ofereceu resistência, mas riu a valer enquanto o delegado tomava-lhe o depoimento.

3113

Na rua estreita passa um homem, não se vê o homem, ouvem-se as palavras, que são gritadas à medida que caminha, “todos irão para o inferno, a vida não vale nada”, parece desesperado, mas é enganoso supor que esteja menos feliz que qualquer um de nós, moradores do 3113.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Fantasma


Faltavam quatro minutos pra meia noite quando o caminhão encostou, parando totalmente ao lado do monturo, e dele saltou um homem pequeno, não mais que um 1,60 m, que se pôs a trabalhar, primeiro lentamente, depois num ritmo que sugeria automatismo.

Em 20 minutos, retirou, a golpes de pá, todo o lixo acumulado na esquina da avenida. Em seguida, voltou à boleia do caminhão, onde o motorista dormia à sua espera.

O homem pequeno cutucou o motorista no braço. O motorista despertou. Parecia acostumado a tirar esses cochilos breves, portanto não houve susto, apenas um leve movimento de pálpebras que pode ser interpretado como equivalente àquela sacudida de corpo que o cachorro promove ao se molhar. Algo para espantar o sono que se avizinhava.

O caminhão foi embora. Amanhã, durante todo o dia, a esquina voltará a encher-se de lixo. À meia noite, uma caçamba, não se sabe se a mesma, irá estacionar do lado direito da avenida.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

NESSE EU CONFIO! (avulsos AERO)


A MORAL SEMPRE ERETA


Francis Santiago e Ruilivínio Bento& Silva


A grandeza de um político não reside na robustez de suas propostas nem em seu caráter excelso quando à frente da máquina pública. A explícita demonstração da musculatura de um candidato, a inequívoca expressão de sua excepcionalidade enquanto pessoa humana & homem democrata encontra-se invariavelmente em sua capacidade de fazer eleger um sucessor. Não obstante as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) advoguem o contrário, esse sucessor pode, na contemporaneidade, ser não apenas fantoche, mas também fantasma. Apenas em condições extremas ele será um ente inanimado. Um poste sem serventia, por exemplo.


O caso não é de todo desinteressante. No atual contexto político cearense, impõe-se a reflexão sobre as possíveis vantagens de uma gestão que fosse orquestrada por um poste de luz elétrica como esses tantos que se veem à beira da Zé Bastos secundados por levas de travestis exibicionistas arrebitando seus potentados traseiros adquiridos mediante implantes de silicones em clínicas de relativo glamour.


Consideremos o poste engajado, que não seria pichado nem repleto de algaravias de arraias, tampouco chafurdado pela urina oleosa após anos e anos de serviços prestados a bêbados e cachorros. Pensemos num poste ideal, mergulhado no vácuo, semque lhe fossem dirigidas quaisquer forças, gravitacional ou de outra natureza. Um poste furado, de concreto, medindo de 7,5 a 10 metros, comprido, reto como convém, inquebrantável e incorruptível. Não um galalau de alta tensão que se projetasse infinitamente acima das nossas cabeças, denotando, por vocação, claro distanciamento de classe. Fiquemos com um desses membros de rua, um poste cujas linhas avancem em progressão aritmética, num suave crescendo, exalando poesia matemática e discrição no servir.


Tal poste seria necessariamente um destrambelho no trato da coisa pública? Representaria apocalipse maior que o praticado por maus gestores? Decerto que não. Tal poste jamais se vergaria à fome de cargos dos apoiadores. Mesmo que quisesse. Sua estrutura concreta o impediria de arregar. Brochar, jamais. O lema seria: por um membro inexpugnável para Fortaleza.


A literatura política é rarefeita quando se trata de objetos que assumem misteriosamente o comando de cidades, estados e nações. Há casos, entretanto. Em São João do Meriti, um fogão quatro bocas, uma das quais entupida, erradicou a miséria em apenas oito anos de mando. Num pequeno município do interior da Bahia, uma cama de solteiro presidiu com elevado sentido cívico os destinos de 30 mil habitantes. Foi reeleita para mais um governo. Em Saboeiro, no Ceará, um tripé de madeira expandiu a oferta de empregos e garantiu acesso a creches etc. No interior do Rio Grande do Sul, um pepino gigante foi o responsável pela descriminalização da maconha.


Por que um poste de energia não haveria de obter bons resultados em Fortaleza? Suas vantagens são inúmeras: seria osso duro de roer na Câmara Municipal e um falo sempre em riste contra os corruptos, além de reunir know-how no arranjo de redes e experiência na lida das intempéries climáticas. Por essas e outras, Aerolândia vota no poste. E arremessa o par de sapatos alheio no cabo de energia elétrica, eterno amuleto da molecagem suburbana.