terça-feira, 10 de novembro de 2009

ELa tomou o quarto, a sala, a cozinha


Ainda, ainda. Sobrevivendo.

Depois da cortina de fumaça que invadiu o quarto há dois domingos, acordo sempre ressabiado, temendo ser definitivamente engolfado pelo negrume que vem do quintal das velhinhas. É uma sensação esquisita essa de ir dormir sem saber ao certo se no dia seguinte você vai acordar bem, deitado na cama ou na rede, ou dando voltas e voltas no centro gravitacional de alguma galáxia macabra.

O fato é que ninguém sabe explicar direito do que se tratava, se restos de animais mortos ou pedaços de madeira, se pneus velhos ou vestidos considerados sem préstimo pelas idosas. De todo modo, fico intrigado com a durabilidade do efeito. Sempre que chego em casa, é como se tivessem acabado de atear fogo ao cesto de roupas sujas. Minhas camisas têm agora esse segundo ou terceiro odor: fumaça. Além dele, o cheiro de suor e fuligem da rua.

Bom, era isso. Recado dado. Tenho menos de três semanas para escrever dois capítulos de uma monografia que, se não tem atrapalhado meu sono, é só porque nada no mundo consegue atrapalhar meu sono. Menos de três semanas para escrever algo em torno de quarenta mil caracteres. Acho que mais, não sei direito.

Assim, podem me dispensar de festas, aniversários, casamentos, saídas no fim de semana. Só tenho ido a igrejas ultimamente – pedir por meus pecados e rezar para que a banca escolhida para defesa tenha algum dó de mim.

Deus, se eles não sabem o que fazem, eu garanto: também não sei.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

VEjam: COragem, o Cão COVARDE, sou eu


LEt's SEE

Vamos ver se tudo fica bem neste fim de semana. Ver se o que tem de acontecer acontece. E se o que tem de parar de acontecer de fato se retrai, não acontece.

Vamos ver se ele não esquece os amigos, se não cutuca inimigos, se não brinca com a vida. Vamos ver se respeita os limites, se logra equilíbrio, se não caminha lento, se não anda depressa, se não atropela, se não se atropela.

Se não se atrapalha.

Vamos ver se dança no ritmo, de acordo com a música, ou se, autista, ouve uma canção que ninguém mais toca, ninguém mais ouve. Vamos ver se tem espírito coletivo, se não celebra sozinho a festa da sexta-feira.

Vamos ver se tem luz nos olhos, no sorriso. Vamos ver se se encanta, se desencanta.

Vamos ver se para de falar, se consegue calar, se conclui as mudanças. Se reata as andanças. Se entra na dança. Vamos ver se respira aliviado, se desentope as artérias, se voa aprumado.

Vamos ver, vamos ver.

sábado, 31 de outubro de 2009

Sem assunto III

Atrasadas: Palestina, jornal de domingo passado, Quem quer ser um milionário?. Aquele do Sebald.

Muita coisa. Uma vida inteira atrasada. Parada em algum ponto. TINha que tomar à esquerda, mas segui em frente.

Reduzir a marcha, mas avancei.

Sem assunto II

O que fazem no fim de semana? Segunda-feira, finados. Tenho dois tios lado a lado no cemitério. Mas não saio de casa.

Nem para ver a irmã. Discurso.

Amanhã compro televisão. Coloco tudo na sala-cozinha. Meu apartamento é mágico: saio da sala para a cozinha sem mover um centímetro. Apenas ali, parado.

É a classe média apertada.

Discurso. Breve: descrição do escritório do obstetra / ginecologista / sexólogo. Muitas vulvas de plástico decorando as paredes claras. Muitos quadros exibindo mulheres grávidas cercadas por flores, árvores, numa clara exacerbação pelo mau gosto da fertilidade feminina. Depois falo. Agora, agora. Mudança. Ainda não sei onde pus as coisas. Estou encontrando. MUdança. Detesto.

Sem assunto

Uma entrevista.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

HOJE

Essa quinta-feira está marcada. Como a mais bonita.

Desta estrada.

Another

For her

Do(u) meu Jeito

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

De novo

Bom, uma semana inteira sem textos. O que tenho a dizer?

Esperança de ti. Esperança de ti mesmo agora, mesmo que tudo pareça perdido. Porque se há esse sentimento bonito, há tudo.

Notícias em breve. Aguardem. Oskar esteve fora, perdido, fora da rota, mas começa a se encontrar novamente. A vida é gangorra.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

To Dormir

Aqui. Leiam. Volto correndo antes que sintam minha falta na sala apertada de reuniões.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O NÃO-DOENTE

Ora, ora, querem saber de quem se trata?

Y. é um estudante metade judeu, metade palestino, nascido na França mas culturalmente educado nos Estados Unidos – acertou quem pensou em Pittsburgh. Tem a pele morena, pernas cambaleantes e cabelos encaracolados, óculos de lentes e aro grossos. Veste-se quase sempre com camisas de flanela quadriculadas, calça leve, sapatos brancos, sem mais adereços além dos olhos esbugalhados. Não é exatamente um dândi – quem o conhece sabe que não.

Vive em Fortaleza há pelo menos 21 anos. É ilustrador, desenhista, escritor, viciado, insone, vândalo, desocupado. Abriga uma MOLÉSTIA INOMINADA cujo tratamento é dificultado precisamente porque a MOLÉSTIA É INOMINADA. E isso quer dizer:

Y. tem ataques freqüentes que o sacodem por 1h20min32segundos. Fosse epiléptico, teria alguma chance de viver por certo período de tempo. Fosse. SUA DOENÇA É INCOGNOSCÍVEL. Não está catalogada nos manuais clínicos.

Pronto, falei. Espero que possam identificá-lo na rua depois desse perfil acuradíssimo.

Notícias do cacto

Depois de se fingir de morto – cobriu-se de um “verde IJF” dos pés à cabeça -, o cacto revive. Eu o salvei, me felicito sempre que passo no corredor e enquanto sou acalmado pelas ondas que quebram a alguns metros da minha janela vejo suas pernas e braços esverdeando-se lenta mas firmemente, lenta mas alegremente soa bem melhor que qualquer outra coisa. Tem um broto nascendo-lhe junto aos pés. Um broto bem verde. O miolo também parece bem saudável quando noto espalhar-se numa medida convicta.

Andorinha, nosso cacto vive.

Se ainda tivesse celular, se ainda tivesse carteira também, faria inúmeras fotos do cacto e diria veja, ele está a salvo, sua saúde é de ferro, parecia demente, parecia incurável, parecia para sempre haver embarcado em uma nau clarineta com destino certo ao inferno dos cactos porque para cactos, alguém disse, mesmo o céu espinhoso é infernal.

E agora vai viver mais tempo que você e eu.

Dias realmente assim ou o Grande Gamer


Tem dias em que a gente acorda, serve-se de café como de costume e sai para trabalhar mas de algum modo estranho, de algum modo perversamente inusitado permanece atrelado ao dormitório, e nosso corpo finge desconhecer a preguiça comportando-se como um jovem rebelde cujos pais o cobrem de presentes a cada final de ano embora ele sempre se recuse a aceitar afirmando cheio dessa novidade que é a consciência política, afirmando EU não posso, os hutus estão destruindo os tutsis, e é somente nesse ponto que seus pais entendem, como o cérebro entende os caprichos do corpo, eles entendem que o filho pode seguir em frente porque a adolescência, essa doença, um dia passará e não deixará marcas senão aquelas absolutamente necessárias, como o susto que se segue ao primeiro gozo silencioso.

Tem dias assim, incrivelmente assim.

Take a cigarrete


Bom, bom. Estamos aqui para falar sério ou o quê? Ora, não sei por onde nem como começar, disse Y. Nem eu, respondi soltando nuvenzinhas de fumaça.

Bom, bom. Estávamos ontem mesmo falando do que quer que seja quando de repente nos ocorreu qualquer idéia maluca. A idéia maluca logo se converteu em qualquer coisa exeqüível. Foi tudo muito rápido. Será realmente posta em prática?

Prontamente, disse.

Os textos são cada vez mais necessários, despistou. Contradisse-o com informação. Há menos gente interessada na leitura do que na copa do mundo. Há menos gente interessada na leitura do que na televisão. Isso há pelo menos cinco gerações. Há menos gente interessada na leitura do que na gastronomia.

ISSO É - questionável.

Isso é verdade. Sempre foi. Sempre será.

Desisto.

Quero um cigarro.

ANDO ATÉ O BALCÃO DA COZINHA. ALI, EM CIMA DA NOVA EDIÇÃO DE SERROTE, UM MAÇO DE MARLBORO. A CAIXA VERMELHA BRILHA INTENSAMENTE. ANTEVEJO A CENA: ACENDEREI O CIGARRO E, EM SEGUIDA, CAMINHAREI SEM PRESSA AO LONGO DO CORREDOR ESTREITO DO CONDOMÍNIO. ESTAMOS SENDO FILMADOS? QUE NOS FILMEM, POIS.

Embalagem linda, não? Lembra uma boa capa de livro. Gosto dela. Embora seja um cigarro forte, gosto.

Y. não relacionou cores e formas. Nem confirmou arrolou dados atualizados do Ministério da Saúde. Disse apenas “É simples”. É mesmo, concordei. Sim, nós podemos.

Ora, ora.

Fomos dormir depois de tudo isso. Afinal - Y. aconselhou não uma, mas cinco vezes –, leitores são costumeiramente preguiçosos. Não gostam de ler nada que vá além dos 140 caracteres.

domingo, 11 de outubro de 2009

O PARQUE DE DIVERSÕES

A cena do parque.

Homem branco se aproxima de catador de latinhas. Catador lhe pede dinheiro. Possivelmente para comer. Homem branco, calvo, camisa de botão e calça jeans, fica ainda mais próximo.

A poucos metros dali, casal assiste tudo. Parece desconfiado.

Homem branco e catador cochicham. Homem explica algum procedimento. Orienta, sugere etapas para o cumprimento rigoroso de alguma tarefa. Catador está confuso. Quer as moedas, mas não sabe se está realmente entendendo o que Homem branco pretende com tudo aquilo. E essa voz? Por que tanto rigor, tanto método comprimidos numa voz rala, insidiosa? Ele não entende. Quer atacar as moedas e se danar dali.

Homem branco nota chegada do casal, desconcerta-se, finge interesse na rotina nutricional do catador. Tem movimentos amolecidos. Ele logo pergunta: dá para você lanchar?

O catador olha as três ou quatro moedas que passaram a suas mãos. Acha que não vai dar. Atento, o casal cruza olhares com Homem branco. Em seguida, vai embora. O Homem caminha até um dos tantos bancos de madeira da praça. Há pouca gente ali. Pessoas passam rapidamente. Vão apanhar o ônibus do outro lado. Jovens entretêm-se.

O catador senta-se ao lado do Homem, que reata a fala interrompida pelo casal.

Ela, a mulher do casal, lhe explica: quando ficaram cara a cara com Homem branco e catador, ouviu algo como “Se você me ajudar, eu te ajudo”. Homem do casal espanta-se. Diz: Homem branco queria apenas uma chupada. Mulher do casal não dá tanta importância ao fato.

Seguem.

Vem das sereias


Encaro Maria Bethânia. Ela não quer dizer nada. Tem qualquer coisa parecida com um xale envolvendo o seu pescoço. Usa batom vermelho nos lábios levemente rachados e sombra nos olhos ligeiramente fechados. Mesmo feia, tem uma boca absolutamente bonita.

Mas isso de modo algum a salva da desbeleza. Maria Bethânia é sobretudo feia. Tem ares de bruxa, cabelos grisalhos espalhando-se na capa da revista. Parece um velho dinossauro. Uma deusa resgatada de alguma pirâmide.

Dentro da publicação, ela posa para fotos. Usa roupas folgadas: uma calça azul marinho e um camisão branco, cujas mangas vão até os pulsos magros da cantora. Porque desposou o candomblé, ela não usa preto.

Descrevo o rosto: olhos profundamente pretos – desta vez, pretos mesmo. Cabelos ondulados, pele sulcada por incontáveis linhas que, vistas de bem perto, lembra as lavouras de feijão e milho. Para a idade que tem, há poucas rugas.

É comedida nos adornos: um relógio e um cordão que lhe escorre até a cintura. Enquanto penso em Bethânia como a encarnação de uma bruxa, leio a entrevista estampada como manchete de capa da revista. Nela, descubro: mesmo católica, a cantora abraçou o candomblé. Além disso, acredita em sereias. Diz que sua voz vem delas. Mora em mim, mas vem das sereias, do mundo encantado que elas habitam, revela a mulher de 63 anos cuja paixão por um palhaço de circo aos dezessete anos, ou antes disso, a transformou profundamente.

O repórter da revista agora quer saber: trata-se de metáfora ou ela realmente crê nessa figura mágica (sereias)? Bethânia responde que, mesmo não conseguindo vê-las, acredita na existência dessa entidade metade mulher, metade peixe.

Em seguida, falam da polêmica dos financiamentos dos seus shows com verba pública. Bethânia espanta-se. Jamais financiou suas apresentações com dinheiro público. O repórter insiste: mas o dinheiro gasto é descontado do imposto de renda pelas empresas. Bethânia recua, diz que qualquer show de grande porte no Brasil demanda muito dinheiro. Se dependesse apenas da bilheteria, estaria falida.

Volto a olhar para a foto de Bethânia. Ela não parece mais uma bruxa.

sábado, 10 de outubro de 2009

Canta, Benito, canta

Ora, ora, se não é a Krise que bate à porta e pede entrada. Eu digo entre, sim, e trate logo de se abancar, que nossa conversa consumirá ao menos dois terços de minha vida.

Mas ela tem pressa, diz que veio assustar mas já tem agendada outras querelas. Eu digo não seja por isso, e me ofereço de bom grado como ajudante ou o que quer que seja.

Ela se sente lisonjeada, pede tempo para medir corretamente as implicações daquela decisão, eu digo prontamente não há nada que ser decidido, aqui estamos, aqui permaneceremos.

Já na esquina, ela acena. Promete deliberar e concluir tudo dali a dois dias. Aguardo. No rádio, toca Benito de Paula.

Cosendo costuras íntimas

Não sei, não sei, mas acho que fico por aqui desse jeito pensando no que não pode ser mas deveria. Ressalvo porém que os verbos quando terminados em “ia” me assustam profundamente, me convertem em espera e a espera em ansiedade e a ansiedade em cigarros.

Não sei se disse por aqui mas detesto usar e esta, e este, e essa, esse, como em “Este foi por sua vez” ou em qualquer outra situação cuja estrutura compreenda uma formação semelhante. Sempre detesto.

De modo que os verbos quando encerrados nostalgicamente por “ia” atormentam, mas temos ou não temos de aprender a lidar com a tormenta? Claro que temos, certo que temos, corretamente.

Mas não sabemos. E aqui entram os cigarros, que não nos ajudam positivamente mas nos ajudam negativamente, e nos casos em que a ajuda não vem, qualquer tipo de auxílio é definitivamente bem-vindo, mesmo aqueles que nos prejudicam.

Disse tudo que tinha pra dizer nesse sábado medonho de feriado. O clima está péssimo.

Acho que estou viciado em conjunções adversativas, não sei bem a origem desse vício, se ocorre sempre que tento construir alguma afirmação ou se é resultante da natureza adversa que me acompanha nesse tempo.

De qualquer maneira, Oskar, não permita que as coisas melhorem, por favor. Observação: só agora vejo, há uma barata alojada debaixo da tecla CTRL do meu teclado. Está aqui há pelo menos trinta anos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Aqui, que é onde as coisas também acontecem.

So so so boring


Aqui, coisas utilíssimas. Como:

“Noventa por cento dos e-mails enviados diariamente é spam.”

“Gatos dormem 70% de suas vidas.”

“Elefantes não podem saltar e peixinhos dourados não podem piscar.”

Aproveitem. É liquidação. Mentira. Não aproveitem nada.

Onde os fracos não têm vez


Adrien Brody (O pianista) fará o novo Predador. Sim, ele mesmo. Ao lado de Alice Braga, estrelará um filme que, para mim, é cult. Sempre que passa, vejo. Não tenho o disco em casa. Nem gravado. Nem copiado de arquivo ilegal. Nem em VHS. Mas sempre que passa, vejo. À noite, nas madrugadas.

Sou fã incondicional daquele monstro. Quer dizer, do alienígena. O melhor. Melhor que aliens, vampiros, lobisomens. Não há qualquer criatura que possa superar a maestria criminosa do Predador. Ele é insuperável. Tem estilo, amedronta, aterroriza. Que dizer da mira que sai do ombro? E da camuflagem, que se confunde sempre com o ambiente, permitindo que ele quebre espinhas de humanos quando lhe dá na telha?

E da visão em camadas? E dos cabelos? Predador é o máximo. E vai ganhar nova versão. Nela, Brody será um mercenário que caça os caçadores de humanos. Maravilha. Esperemos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O relato preciso, sem codificações nem ambivalências



Fomos assaltados ontem na porta de casa. Pela segunda vez em cinco meses. Voltávamos do supermercado. Sobraçávamos sacolas, pois. O taxista nos ajudava a tirar as compras do porta-malas do Siena branco quando fomos rendidos bruscamente por dois jovens bandidos. Um deles portava revólver. Enquanto nos ameaçava, o outro seguia passando a bandeja. Roubaram tudo. Os dois – um, magricela e nervoso. Falava pelos cotovelos. Distribuiu xingamentos e jurou acertaria um tiro na cabeça de quem reagisse. O outro, corpulento, baixo. Negro. Não se ouviu sua voz.

O QUE LEVARAM MESMO?


A dupla levou tudo. Menos as sacolas. Deram cabo do resto: CPF, RG, título de eleitor, dinheiro, carteira de motorista, cartões, celulares, óculos escuros, mensagens de amor gravadas, fotos as mais estranhas.

Ainda: um bombom Sonho de Valsa que havia dado pra ela.

No dia seguinte, registramos boletim de ocorrência. Com o papel em mãos, saímos em caravana em direção a bancos. Nossa cruzada atravessou a cidade. Antes, porém, havíamos cancelado todos os cartões – portanto, se estiverem me lendo, saibam duma coisa: vão ter de me assaltar novamente caso precisem sacar o dinheiro da conta bancária. E se fizerem isso, estaremos esperando. Eu & A Guarda Armada. Mais Os Dissidentes dos Programas de Reabilitação Policial.

Trata-se de forte milícia armada que vem fazendo fama nos sertões da capital cearense. Não querem se reabilitar. Fazem questão de permanecerem carniceiros.

AS HORAS QUE SE SUCEDERAM AO SINISTRO


Depois do assalto, corremos às ruas para ver se os documentos haviam sido atirados em algum buraco. Às 23 horas, vasculhamos bueiros, cantos de muro, esquinas, monturos. Nada. Rodopiamos, fechamos os olhos e nos pusemos no lugar dos bandidos. Queríamos pensar como eles para termos uma idéia aproximada do que poderiam ter feito com as carteiras. Não conseguimos.

Aproveitamos o silêncio, dançamos na rua e apostamos corrida. Ainda interrompemos um casal estacionado embaixo do negrume projetado por uma castanhola.

Finalmente desistimos. A noite tinha sido boa.

Day after

Ora, ora, o dia seguinte ao do assalto foi realmente uma folia de reis. Melhor: uma romaria de anônimos. Ninguém cria que nós éramos nós mesmos. Pediam sempre documento com foto, documento com foto, documento com foto. Precisava provar a todo instante que OSKAR era eu, que ambos havíamos estado no dia seis de junho de um ano distante na maternidade. Saídos da mesma mulher ao mesmo tempo. Não éramos siameses, mas um corpo só.

Ou ao menos que era alguém bastante parecido comigo. E que Andorinha era ela. Ou... Alguém bastante parecido com ela. Eu consegui. Ela, não.

Agora, não sei se vou ou se fico. Quer dizer, sei que vou. Mas pra onde? Porque o trauma, o medo, o trauma, o horror, o trauma e o receio - permanecem. Eles sabem exatamente onde você mora. Sabem os seus horários. Em que dias da semana você vai ao dentista, ao dermatologista, ao barbeiro e ao supermercado. E esperam sorrateiros atrás das cortinas.

De repente saltam e nos surpreendem com a arma apontada para as nossas caras estúpidas. Assim foi.

sábado, 3 de outubro de 2009

ANTICRISTO EM CASA


De volta, mas ainda cansado. Os dedos haviam pedido qualquer coisa parecida com descanso. Foi inevitável.

Vi Anticristo. Comento.

Primeiro, gostei bastante do filme. Mesmo. Achei-o aterrorizante num sentido lato. Para mim, é, sim, um filme de terror. Não tem monstros, vampiros, lobisomens nem bruxas. Mas é terror aquilo que vemos ao longo de quase duas horas.

Há muito que ser dito. Por exemplo: de que trata realmente o longa? Não sei dizer ao certo. Entendo que aborda a relação entre o homem e o divino. Melhor: entre o divino e o baixo, o caído, expresso conceitualmente como aquilo que está na ordem da Igreja de Satanás.

A natureza – árvores, animais e demais seres vivos que a habitam – é essa igreja. A mulher é seu agente? Ao que tudo indica, sim. A mulher é porta de entrada para essa região - a floresta, local para onde o casal se recolhe após a perda de seu filho. Nesse sentido, o feminino pertence ao mesmo campo semântico de: caos, natureza, selvagem, satanás.

Ao de anticristo, pois. Porque vai de encontro ao conhecimento hierarquizado, racional, dogmático. Porque produz um contraconhecimento. Uma contradoutrina, propondo outro tipo de relação com o ambiente. Uma relação também mediada pelo impulso da morte. Pela destruição propositada.

Terapeuta, o personagem masculino acredita poder curar por meio da razão a doença da esposa, que sofre trauma e carrega praticamente sozinha o fardo da culpa pela morte do filho.

Assim, há um casal culpado. O sexo é um elemento. A morte é outro. Entre os dois, há as figuras do feminino e do masculino, que parecem representar forças distintas. O homem, um esforço de compreensão frio. A mulher, a aderência ao que é natural. O pertencimento, o arraigado, o vínculo desesperado. A loucura, o destempero, o impulso de morte e a capacidade de se comunicar com a energia oculta da terra, tragando-a e sendo tragada por ela.

A natureza é o ambiente satânico. Porque é lá onde se encontram os ingredientes com que se forja um conhecimento laico, não-cristão.

(SABIA QUE ME PERDERIA NESSA ANÁLISE TANTO QUANTO QUE NÃO PODERIA DEIXAR DE FALAR DESSE FILME. VAMOS EM FRENTE).

Não por acaso, a personagem feminina dedica-se a estudar o “feminicídio” ao longo da história humana. Não por acaso, identifica-se com as bruxas, as feiticeiras que foram consideradas veículos do demônio e atiradas ao fogo. Não por acaso, é como que dominada por essa área de estudo. E finalmente: não por acaso resolve voltar à cabana perdida na floresta.

Para mim, toda essa simbologia é bastante forte para não querer dizer nada além de comunicar informações de pano de fundo. Mas, Anticristo se encerra nesse esquema?

Obviamente, não. No final, tem-se um dado que embaça essa construção. O propósito. O desígnio. A vontade. O arbítrio. Tudo como a dizer: anticristo somos aqueles que, entre a vida e a morte, escolhemos a morte.

Há mais para ser dito. Brevemente. Não agora. Como: Lars von Trier fez um bom filme? Acho que sim. Embora tenda a reconhecer que algumas cenas poderiam não ter sido mostradas – a mutilação, por exemplo, porque narrativamente a sugestão teria o mesmo valor. No longa, porém, o diretor escolhe explicitar tudo. Nada é escondido.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Oldman

Um dia estriado. Banheiro ocupado. Faltava água. No cesto do lixo, muita água, quem fez isso? Ninguém sabe. Todo se entreapontam, entreolham, entregam.

Todos se entretêm.

“É tão ruim se perceber com tantas falhas, cheio de manias e lembranças. São tantos ossos divididos em mim.”

Foi Deus que me fez assim? Gente, gente. Hoje é quinta-feira. Quinta. QUINTA. Amanhã é sexta-feira, sexta, SEXTA.

Finalmente começa a música 10. Ouço o disco inteiro à espera da 10. Será que você tem tantas angústias quanto eu?

Ela quer, ele também. Todos virtualmente querem

As divisões costumeiras se diluem gradualmente. Há apenas: a Semana, que compreende exatamente cinco dias, os quais começam e terminam sem grandes alaridos.

E o: Fim de semana, que passa fugazmente. Corre, corre. O fim de semana tem mais pressa que qualquer vendedor da Casa Pio. Tem mais pressa que eu, que não tenho tanta pressa não por que não queira, mas precisamente porque não há tanto tempo assim e o tempo que resta é geralmente consumido entre pequenos saltos quânticos.

Ontem mesmo tivemos um. Hoje, outro. Somos um casal quântico. Damos razão ao homem cujos ensinamentos implicam sempre numa teoria estatística vazada de humanidade. Mais matemática que estatística, é verdade. Porque há tanta matemática nas relações tempestuosas.

Há tanta que nem intuímos.

Tem os filmes de sempre. Distrito 9. Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. O homem que amava as mulheres, que também não vi mas quero ver tão logo as nuvens de chuva dêem sinal de que aquela ventania não tinha qualquer coisa que ver com o mau tempo e tudo agora não passa de céu azul e tufos de algodão flocado encimando as nossas cabecinhas.

De todo modo, preparem-se. Estamos perto do final do ano. Daqui a pouco é Natal. Daqui a pouco é 2010, o ano do resto das nossas vidas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

RUn, RUm, soda

Correndo, sempre correndo. Escrevo muito por aqui: @OskarSays. Não queria, mas tenho feito isso. Lá, tudo tão fluido, escorregadio. Aqui, me espalho, vou além. Não há pensamento que não sucumba à lógica cruel da enxuta estrutura frasal proposta pela sistemática de publicação.

Mas vejam só. É bom. E depois, não levem nada a sério de mais. Nem vale a pena. Prometo calma para as próximas horas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

temumjeitomanso que ésóseu